quarta-feira, 25 de abril de 2007


O dia estava começando a amanhecer ainda no azul profundo da madrugada, quando sem um pingo de sono, resolvi caminhar para pensar melhor no sentido das coisas. Fui ver o mar. Sentir a brisa que vem de longe, o ar salgado da maresia, o som das pedras. Sentei-me na areia e fiquei a contemplar por um bom tempo o meu velho amigo. Era tão bom estar ali, deixar o corpo relaxar, fechar os olhos e me deixar levar pelo som das ondas...Quando dei por mim estava deitada na areia e ao abrir os olhos, percebi que o céu ainda estava todo estrelado. Que momento fantástico, poder contlempar o tão profundo céu da madrugada, pois quando o dia amanhece é que dá pra perceber quais as estrelas que ficam mais próximas da Terra e o céu que aos pouco é iluminado, produz um espetáculo de cores irradiadas pelo sol, um quadro pintado pelo o acaso da mão natural. Tive a sensação de que não estava sozinha, me levantei e vi uma menina caminhando à beira da praia, parecia ter uns sete anos, cabelos escuros, compridos, bem penteados, uma menina linda, com uma imponência sem igual e que passava tranquilidade só de olhar para ela. Caminhava brincando com as ondas, conversando com elas, eu já não sabia se estava delirando por conta de tanta angústia ou se era realmente verdade, fiquei a contemplá-la por um tempo, a brincadeira estava muito divertida, se comunicava tão bem com as ondas como se fossem grandes amigas, tão intimas, tão puras... Era tão gostosa aquela brincadeira que fiquei com inveja da intimidade e me levantei para tocar os pés no mar também. Saber se aquela força poderia me fazer bem e talvez me transformar numa criança como aquela que parecia não ter problemas. Aliás, crianças não sentem tanto os problemas do mundo...

Gabriela Leite

terça-feira, 17 de abril de 2007

sob os ares de conquista

nenhuma vontade senão deixar o tempo construir os espaços, com suas cores, seu lento sopro sobre as folhas do quintal enquanto tia sônia reparte uma romã e propõe uma degustação coletiva das sementes num pequeno círculo de pequenas bruxas debaixo da romanzeira, a rede dança com o corpo de paulo num ir e vir como vai a tarde, morna, morgana, dali o dia passa ou não passa, o céu uma redoma ampla de teto baixo, que quase nos cospe no espaço repleto de grãos e mais um pouco de existência para ser pintada num quadro cinza cheio de garoa, água de alfinete na pele que arrepia mas quer noite e seguimos em bando pelo asfalto, pequeno sopro coletivo de vida, encontrar pessoas, abraçar pessoas, beijar pessoas, a busca por elas e por mãos que se tocam, olhares que se cruzam, corpos que se encostam, sentidos que se cruzam na música que sai de omar, as noites, as tardes, os desejos se misturam, há já um aroma reconhecido, o regresso da afetividade, o reencontro com a afetividade, a memória da afetividade, a afetividade que surge da disponibilidade, deixar-se tocar num movimento lento, quase um torpor, um passo suave igual iam lá em cima as folhas do quintal.

Fabiana Leite